A Importância da Presença do Adulto na Vida da Criança

Todo adulto, que tem filhos ou que convive com crianças, sabe como eles precisam da nossa presença; seja para apreciar algo que estejam fazendo, observando ou porque querem se sentir mais seguros.

Quero convidá-lo a fazer junto comigo uma reflexão sobre a qualidade de sua presença diante das experiências que você tem com as crianças. Sugiro que, enquanto estiver lendo este texto, tente lembrar-se dos momentos em que as crianças estavam necessitando de seu olhar, de suas palavras ou de seu toque, mas você não estava muito presente. Relembre também os momentos em que esteve inteiro, e as crianças podiam contar com a sua presença.

Talvez você já saiba que eu adoro contar histórias para crianças, pais e professores. Neste texto, vou compartilhar com você alguns relatos, pois fico superfeliz quando me lembro de alguma história verdadeira que possa ilustrar e explicar melhor uma situação, um assunto ou que nos ajude a compreender de maneira mais profunda alguma experiência.

Espero que você saboreie algumas vivências, que nos ajudarão a perceber como estamos oferecendo nossa atenção para as crianças; assim como, a entender como podemos melhorar nossa relação com elas a partir de uma reflexão pessoal. Proponho que você entre nas histórias, analise como está sendo sua presença na vida dos pequenos e se pergunte: “Ela precisa ser mais efetiva?” Ou, por outro lado, você pode concluir que a sua presença é tão boa e que as crianças têm aproveitado muito cada momento em que estão com você.

A CRIANÇA ADORA APRECIAR A NATUREZA E O MUNDO AO SEU REDOR

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Tenho viajado por várias cidades do Brasil ministrando a formação “Como Ensinar Yoga para Crianças.” Certo dia, em uma dessas viagens, eu estava no avião. Perto de mim, havia uma menina lourinha, com cabelos cheios de cachinhos. Ela sempre me fitava com os olhos, expressando uma suave alegria com seu sorriso. Que criança bela! Em um determinado momento, ela disse: “Pai, pai! Veja a nuvem dando um abraço no mar”. O pai estava tão entretido com o jornal que nem olhou para a menina. Ela novamente disse: “Pai, pai! Veja! A nuvem está dando um abraço no mar”. Ele apenas fez um gesto com a cabeça, mas não disse nada. Passou mais um tempinho, a menina falou a mesma coisa novamente. O seu pai, com o rosto sério, disse: “Tá bom! Tá bom!” Ela apenas continuou a olhar a nuvem que abraçava o mar. Seu semblante mudou, e triste ela ficou…

Cada um tem seu estilo e seu modo de viver, e cada criança tem algo a aprender com os adultos com os quais convive. No entanto, quando aprendemos a refletir sobre o nosso papel, passamos a ter um novo olhar sobre nossa função de pais, educadores e cuidadores das crianças. Quando aproveitamos o tempo que estamos com elas e vivemos profundamente essa relação, podemos aprender novas formas de ver o mundo e a vida.

As histórias que vivenciamos com as crianças podem nos ajudar a ver o mundo de uma forma mais criativa e divertida. O pai dessa história talvez nunca tenha pensado nisso ou não teve a oportunidade de entender melhor a importância de sua presença nas pequenas experiências da vida de sua filha. É valioso que o educador aproveite esses momentos e entre no mundo da criança: imagine junto, observe, explore ainda mais o olhar da criança. Nesse caso, ele poderia brincar de descobrir se a nuvem abraçava outros elementos da natureza além do mar, por exemplo. Enfim, a principal ideia deste texto é a de pensarmos como estamos lindando com as oportunidades que temos de curtir com vontade, criatividade e dedicação os momentos que estamos com nossos pequenos.

Essas vivências nos permitem saber o que a criança pode estar sentindo em relação a sua vida. Imagine-se olhando uma cena como essa da menina. Quando ela diz que a nuvem está abraçando o mar, ela expressa isso com tanta alegria que nos faz aprender a observar a natureza com esse olhar puro e cheio de alegria. Além disso, nos dá a oportunidade de compreender o que pode estar atrás dessa fala. Será que está faltando um abraço na vida dela? Talvez podemos curtir a cena junto com a criança e oferecer ainda mais a nossa atenção, dizendo: “Assim como a nuvem abraça o mar, eu também quero ter dar um forte abraço!”

 

Gostaria de convidá-lo a perceber como você tem lidado com isso. Se você continua fazendo suas tarefas e não dá atenção às pequenas descobertas das crianças ao seu redor ou se você se dedica, sendo presente e, por isso, tem muitas histórias para contar…

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A criança sempre demonstra muita alegria e felicidade quando ela percebe que estamos juntos, que estamos presentes e que, principalmente, imaginamos e fazemos descobertas junto com ela. Assim, aproveite cada momento que esteja com os pequenos e vá fundo nessas vivências. A cada dia, você vai tomando gosto em saborear esses momentos tão deliciosos.

Em um dia ensolarado, uma criança brincava de fazer um castelinho de areia junto com seu pai. Eles construíam o castelo e, ao mesmo tempo, curtiam tudo o que permeava a linda paisagem daquele lugar. Divertiam-se com as gaivotas que voavam e pousavam bem perto deles. Corriam para a água e ficavam brincando de apostar quem seria mais corajoso para mergulhar naquele mar supergelado. Brincavam de pegar as várias conchas que tinham na areia para enfeitar o enorme castelo que estavam construindo. Foram algumas horas em que aquele pai mergulhava não apenas no mar, mas na experiência de viver intensamente aquele momento ao lado de seu filho.

Do começo ao fim dessa história, o que ficou mais registrado em minha memória foi ver a alegria da criança em curtir aqueles momentos com um pai tão presente e tão atento em explorar junto com o filho as belezas daquele lugar, deixando a alegria, a imaginação e a criatividade dar nome para cada vivência ao lado de seu pequeno.

A INFLUÊNCIA DOS ELETRÔNICOS NA NOSSA RELAÇÃO COM AS CRIANÇAS

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Todos nós temos que estar sempre atentos, pois os eletrônicos ocupam uma boa parte de nossa vida. Eles estão nos consumindo, mesmo quando não precisamos deles.

O celular, a TV e outros eletrônicos interferem muito em nossa relação com os pequenos, pois, muitas vezes, colocamos tanto a nossa atenção nesses aparelhos que ficamos distantes ou alheios. Com isso, as crianças também são influenciadas com o “vício” ou se isolam levando suas vidas sem a presença dos adultos com os quais convive.

Sempre atraio as crianças e acabo interagindo de alguma forma com elas. Certo dia, eu estava em um aeroporto. Na minha frente, havia uma menina, moreninha, comendo um chocolate enorme. Seu pai estava sentado do lado dela completamente absorto em seu celular. Ele nem percebia que eu me comunicava o tempo todo, sem falar, com a filha dele, pois ela era muito engraçada e comunicativa. Em um determinado momento, ela começou a criar formas de animais com aquele chocolate.

A cada mordida, era um bicho que se formava. Ela riu e comentou: “Pai, olha fiz um gato.” O pai não disse nada. Outra mordida, e ela disse: “Pai, agora fiz um monstro.” Ele nem se mexia, ou melhor, ele não a escutava. Entre uma mordida e outra, nós ríamos uma para a outra. A menina continuava a falar para o pai os bichinhos que formava com aquele chocolate. O pai não viu os bichos e não disse nada em nenhum momento. Chegou o horário de meu embarque, quando o chocolate estava quase acabando, e não pude ver se o pai, pelo menos, apreciou o último bicho.

Gostaria de dizer que não estou aqui para criticar. Também quero aproveitar o que escrevo para rever minhas próprias atitudes e procurar estar presente quando uma criança estiver comigo. A prática da Yoga, da meditação, os passeios, a praia, a natureza podem relaxar, acalmar e trazer muita alegria interior tanto para as crianças quanto para os adultos.

Quando fazemos tudo isso juntos – brincando, imaginando e apreciando cada momento – ofereceremos para elas e para nós mesmos momentos maravilhosos de relaxamento e leveza. Foi por esse motivo que eu trouxe histórias reais, para que possamos entender melhor o nosso papel e descobrir como aproveitar melhor o nosso tempo com as crianças.

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Tenho uma família enorme e muitos amigos que têm filhos. Costumo visitar várias casas e, por isso, vejo cenas em que o adulto está totalmente focado na televisão ou no celular; enquanto a criança, muitas vezes, busca uma interação, mas não consegue. Isso porque o adulto está tão absorvido com esses eletrônicos que não ouve, não interage nem se diverte com as crianças.

Vale aqui para todos nós uma profunda reflexão. A criança nos imita o tempo todo e ela faz aquilo que aprende conosco. A vida de uma criança é construída através da imitação dos adultos com os quais convive e da percepção do que vê ao seu redor. Sendo assim, com nossa proximidade e presença, podemos ajudá-las a fazer boas escolhas e aprender a viver de forma harmoniosa e equilibrada.

Observe as crianças com as quais convive. Caso elas estejam muito ligadas no celular ou na televisão, que tal você também se desligar e brincar com elas? Fazer novas descobertas, plantar, colher, cozinhar… Enfim, aproveite para se distanciar dos eletrônicos e descobrir um novo jeito de aliviar o estresse e o cansaço estando junto de fato com elas.

Muitos adultos têm descoberto que brincar com as crianças, praticar yoga, meditar, jogar e fazer atividades de casa como cozinhar, lavar o carro e outras tarefas… Tudo isso pode trazer uma nova alegria, uma nova sensação de paz, de segurança e felicidade tanto para as crianças como para os adultos. Assim, aproveite e desfrute dessas oportunidades enquanto seus filhos são pequenos…

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Um gerente de umas das empresas em que trabalhei ministrando cursos, descobriu que sempre chegava em casa tão cansado que nem conversava com seus filhos. Até que ele leu um texto sobre esse assunto e decidiu mudar. Depois disso, todos os dias, a prioridade para ele era brincar com as crianças.

Eles jogavam, coloriam, pintavam, modelavam massinhas e praticavam yoga. Ele disse que, desde que passou a fazer isso, além de perceber uma enorme mudança em si mesmo, melhorou muito sua comunicação com os pequenos, pois ficou mais fácil para orientá-los e dar limites.

Ele contou que a alegria das crianças a cada dia aumentava e ele ficava completamente contagiado com ela. Ele enfatizou, com lágrimas nos olhos: “Como sou grato por ter participado da vida dos meus filhos. Eles puderam sentir minha presença” – e essa presença vibrava como alegria em seus olhos. “Como aprendi, como aproveitei e me senti feliz”, relatou.

A IMPORTÂNCIA DO TEMPO E DA DEDICAÇÃO NO CRESCIMENTO DA CRIANÇA

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As orientações, a ajuda e a presença dos pais contribuem enormemente para que a criança desenvolva mais efetivamente o seu lado emocional. Esse auxílio lhe dá segurança para lidar com as diferentes situações de seu dia a dia.

O apoio amoroso, o conforto, a aceitação e a proteção dos pais irão refletir na vida adulta das crianças, já que, na relação familiar, ela constrói os valores para viver de forma equilibrada. Quando o casal compartilha as tarefas para cuidar de seus filhos, desde seu nascimento, quando participam juntos dos assuntos relacionados à escola, quando sempre criam momentos para estar com os pequenos, quando conhecem a rotina da criança, quando procuram saber como a criança está – quais seus gostos e aversões, perguntando para quem está cuidando dela -, os pais conseguem ter um conhecimento maior do seu filho. Isso permite ajudá-lo e estimulá-lo em seu crescimento de uma forma mais eficaz.

A convivência não costuma ser fácil, mas sabemos que, quando existe essa entrega dos pais durante o processo de crescimento das crianças, a qualidade de vida da família é completamente diferenciada. A criança, que cresce com esse cuidado, normalmente reflete a alegria e a felicidade por ter pais presentes e atentos ao seu desenvolvimento.

A presença dos pais na vida da criança exige que ofereçam o seu tempo e muito de si mesmos. Para alguns, o tempo sempre é uma grande barreira. No entanto, mesmo que pouco, se os momentos que estiver com as crianças forem vividos intensamente e com qualidade, isso ajudará muito.

O principal benefício da presença dos pais na vida de uma criança é proporcionar um crescimento saudável para que ela possa, no futuro, ser um adulto feliz, equilibrado e capaz de lidar com os desafios da vida.

A CRIANÇA, MUITAS VEZES, APENAS QUER DIZER: “QUERO A SUA PRESENÇA!”

A criança é muito esperta. Uma esperteza que vem da alma, que vem do coração. Como é comum a criança gritar, jogar coisas para o alto, espernear ou chorar. Essas birras sempre estão relacionadas a alguma sensação que a criança não está sabendo como lidar. Ela precisa de nós, ela precisa do adulto para conduzi-la a uma vida equilibrada e harmoniosa.

Ela espera que nós, como adultos, sejamos presentes, criativos e inteligentes. No entanto, não é o intelecto dela que pensa: “faço birra para você estar presente”. É a alma dela. Sua alma sabe que alguém mais experiente pode ajudá-la a ser mais sábia, a descobrir como lidar com a raiva, com o ciúme, com o medo ou com a própria falta da presença do adulto em sua vida. É a alma que quer um adulto a conduza de forma positiva e amorosa.

Dependendo da criança, temos que repetir muitas vezes nossas atitudes e orientações, mas temos que nos lembrar de que o treinamento também é nosso. Com elas, treinamos a tolerância, a paciência, a criatividade e a capacidade de pedir ajuda para alguém, de dividir o que estamos vivendo para que possamos lidar melhor com nossos pequenos.

Lembre-se de que a criança apenas quer dizer: “Quero a sua presença!” Ela não tem ideia de tempo, pois o mal deste mundo é o tempo… Para ela, um minuto, uma hora ou várias horas de qualidade são uma eternidade, desde que ela sinta a sua abençoada presença!

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